sábado, junho 11

o camelo-leopardo e o coiote

recebi da áfrica do sul uma
girafa de montar
minha irmã sabe que gosto de
quebra-cabeças e de animais
com a letra


no meu sonho você sacava um cigarro de palha

encaixo 4A com 5B enquanto
recitas Matilde
oras
amamos Matilde no entanto
estamos fartas de ler
tantas querendo
ser
Matildes

no meu sonho você acendia um cigarro de palha

as pernas não encaixam
no dorso cortado
a quente na china
é uma girafa africana
e não recita poemas
lusitanos

no meu sonho você tragava um cigarro de palha

coleciona na estante
instantes
do quarto bibelôs do leste
europeu e algumas
moedas irlandesas
- não conhecia poetas da antiga
iugoslávia enquanto as estrelas
se punham

no meu sonho um cigarro de palha queimava no chão

no piso também jaz um animal
de madeira montado por encaixe
(é jeito, não força)
o livro que comprei por tua causa
e as roupas tiradas às pressas

no meu sonho eu te trago como palha tabaco e ar

segunda-feira, junho 6

Terra rossa

na segunda lua do mês

, mulher,

tire a roupa
and lay down on the chair
o estofado é um quadro branco
canvas para ser rubricado
com seu ciclo telúrico
almagre, matéria-
prima do homem
e de todas as costelas

repasse o convite
ao pé
do ouvido
da mulher
ao seu lado
 ao seu lado
  ao seu lado
e ao lado dela

desenvergonhe
convide o judeu
o homem
e as crianças
para prestigiar seu ritual
fásico, marginal aos
calendários
e tão íntimo dessa olaria
que é o útero

__________

Coautoria de Arthur Rivelo e Ingrid Gomes
Exercício sobre poesia e performance

quinta-feira, junho 2

enquanto escrevo me molho

quero fazer um passeio a nu
no teto da minha escola
arrastar meu corpo
desprotegido
pelas pedras soltas daquela laje
marcar de vermelho minha pele
alvejada
pela luz da lua
brilhar nua
montar em você ao luar
movimentar-me no teto
lamber-te o sexo
teus dedos escorrendo
de mim
em nós
na laje
da minha escola
e desfilar meu corpo
esfolado
mordiscado
abatido
como um troféu
um prêmio à essa minha ousadia
tão selvagem