sexta-feira, novembro 11

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provavelmente morrerei antes dos quarenta e cinco
no acidente forjado por mim
antes dos quarenta
da ponta da lâmina que corta da faca
com trinta e cinco morro
de depressão
pós-parto
no passo em falso
e na queda planejada morrerei
aos trinta
presa encarcerada com fio de corda ou retalho qualquer
vou-me aos vinte e
cinco n’uma viga amiga
ou barra que valha
até meus vinte não pensava
em morte lâmina corda tristeza

a vida começa no medo
a morte a ele dá fim

(fevereiro 2016)

sábado, setembro 17

cotidiano 2x2

pão com geleia de frutas
vermelhas você me prepara
insípido
suco de caju duas partes de água para uma mistura
insulso
tapioca matinal quer presunto ricota?
insosso
dez minutos diários de sol na beira do mar com vento da praia e pássaros rasante você de bicicleta me convence

...

tão bom pra mim

forço a comida a cerveja o convívio o exercício a musculatura pélvica pra extrair a gota restante de prazer que me resta ... !
só ainda não perdi o gosto por teu colo quando eu choro nem a ânsia de viver

terça-feira, setembro 13

a velocidade mediana do homem médio atravessando a av. rio branco no dia de sol é de quatro com dois quilômetros por hora

inversamente proporcional é o ritmo do piscar dos seus cílios quando cruza à 45º a esquina da banca

um adendo à equação se faz pelo gole seco ao passar do esôfago ao duodeno, resultando em exatamente nada que servisse à digestão

a expiração alveolar total faz uma mosca mudar ligeiramente o percurso, trombando no sorvete vanilla recém expelido o que causa um grito do passante ao devorador desavisado

no clima seco setembril o ar pouco se movimentou nos arredores do número um sete sete, eliminando momentaneamente a teoria do caos e sendo sugado pelo exaustor do metrô da carioca antes que mandassem um olá qualquer

sábado, junho 11

o camelo-leopardo e o coiote

recebi da áfrica do sul uma
girafa de montar
minha irmã sabe que gosto de
quebra-cabeças e de animais
com a letra


no meu sonho você sacava um cigarro de palha

encaixo 4A com 5B enquanto
recitas Matilde
oras
amamos Matilde no entanto
estamos fartas de ler
tantas querendo
ser
Matildes

no meu sonho você acendia um cigarro de palha

as pernas não encaixam
no dorso cortado
a quente na china
é uma girafa africana
e não recita poemas
lusitanos

no meu sonho você tragava um cigarro de palha

coleciona na estante
instantes
do quarto bibelôs do leste
europeu e algumas
moedas irlandesas
- não conhecia poetas da antiga
iugoslávia enquanto as estrelas
se punham

no meu sonho um cigarro de palha queimava no chão

no piso também jaz um animal
de madeira montado por encaixe
(é jeito, não força)
o livro que comprei por tua causa
e as roupas tiradas às pressas

no meu sonho eu te trago como palha tabaco e ar

segunda-feira, junho 6

Terra rossa

na segunda lua do mês

, mulher,

tire a roupa
and lay down on the chair
o estofado é um quadro branco
canvas para ser rubricado
com seu ciclo telúrico
almagre, matéria-
prima do homem
e de todas as costelas

repasse o convite
ao pé
do ouvido
da mulher
ao seu lado
 ao seu lado
  ao seu lado
e ao lado dela

desenvergonhe
convide o judeu
o homem
e as crianças
para prestigiar seu ritual
fásico, marginal aos
calendários
e tão íntimo dessa olaria
que é o útero

__________

Coautoria de Arthur Rivelo e Ingrid Gomes
Exercício sobre poesia e performance

quinta-feira, junho 2

enquanto escrevo me molho

quero fazer um passeio a nu
no teto da minha escola
arrastar meu corpo
desprotegido
pelas pedras soltas daquela laje
marcar de vermelho minha pele
alvejada
pela luz da lua
brilhar nua
montar em você ao luar
movimentar-me no teto
lamber-te o sexo
teus dedos escorrendo
de mim
em nós
na laje
da minha escola
e desfilar meu corpo
esfolado
mordiscado
abatido
como um troféu
um prêmio à essa minha ousadia
tão selvagem

domingo, maio 22

ouvíamos Belchior
ou José, mas
ouvíamos e
me escutava
a dizer dos dias que
me marejam os olhos
- se o choro é o suor do
cérebro perco calorias
ao cortar cebolas e
papéis de carta
(nunca te envio postais pois
não se envia postais em branco)
dizia de uma tatuagem
enrolada num peito que
registrava só a casca, armadura
pois Mário,
a vida é mesmo um buraco
metonímia de gente é tatu

__________
Exercício sobre o tema Inferno

segunda-feira, abril 4

4 passos

PRECAUÇÕES IMPORTANTES

Quando usar,
alguns cuidados devem sempre
ser tomados:

Certifique-se
da tensão

Use apenas para seu devido
propósito
(o bem)

Para proteger-se, mergulhe
em gás de pimenta ou afogue
em jato d'água

Não utilize em más condições
de tempo ou
políticas

Para evitar o risco de tropa
de choque, não organize
(leve a uma assistência
jurídica legal para carimbos
desnecessários)

Queimaduras podem ocorrer
em caso de contato com
punhos metálicos e
dedos quentes
- evite movimentos

Não seja ao ar livre.

Destinado apenas para usos
autorizados
(não subverter)

Assegure que à superfície
aparenta instabilidade

Nunca utilize se tiver sofrido
queda ou qualquer sinal
de dano na estrutura
política


NOTA 1
Antes de agir, remover qualquer ideal e preencher com senso comum de uso.


NOTA 2
Enquanto descansa, a posição preferencial é à direita.


DICAS PARA PASSAR BEM
Leia e siga as instruções televisionadas.
Mantenha o ânimo baixo sempre que possível.
Se não tiver certeza, não questione.

Nos modelos com spray de pimenta, utilize-o para afastar agentes mais resistentes em qualquer situação de risco.

__________
Exercício de tradução realizado a partir da língua Manual de Ferro de Passar Roupa a Vapor Black&Decker X500

terça-feira, março 22

Estudos sobre o azul

ficamos em partes
de costas à imensa
força da forma

elástica fibrosa bela?

movimento

viramos
e ela assume-se vazio
corpo do céu

numa dança invisível

__________
Exercício de tradução do poema Estudos sobre o silêncio de Mariana Botelho baseado em uma imagem da obra de Daisy Xavier no livro O Último Azul

domingo, março 13

coração a 120 bpm
estômago repentinamente desprovido de circulação sanguínea
espasmo da extremidade esquerda da boca
lágrima às rugas de ação dos músculos da face
o corpo inclina 12º no eixo y
gira no x 27 radianos
temperatura 33ºC
sensação corporal 59ºF
convulsão do globo ocular
umidade relativa da tua língua
rarefeito o ar da boca
pressão atmosférica desce aos seus quadris
movimento repetido gera incompreensão nervosa
reflexo do corpo
teu riso
teu gozo

a luz na retina que se vê antes da morte
d i l a t a

ainda conto vinte dedos, um fígado e dois olhos marejados

__________
Exercício de transbordamento do poema Amor de Oswald de Andrade

tum

há!

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Exercício de contenção do poema Amor de Oswald de Andrade

quinta-feira, janeiro 7

um poema sobre um / abacateiro no quintal

abacate servido pela avó com açúcar
de cana
no quintal
quando senta na viga (não, pilar)
de concreto pré moldado
joga os bagaços cortados
pelo avô na terra
de pilar (não viga)
constrói a casa
dos fundos
do quintal
sótão depósito vira refúgio
juvenil
com escada de mão subindo
até o telhado 
a ver o terreno vizinho
sem quintal
sem minhocas para criar
num pote de mel
das abelhas vicinais
demente que diz
ter uma arma
mentira, demente
é uma parede preta
 - nunca tinha visto uma parede cor preta -
que descasca
e no banho de chuva no verão
das férias
forma arco e cor
aprendi mais física com meu avô que estudou até a quarta série do que com os doutorados do colégio