terça-feira, junho 30

Falsa compilação de amores dos anos 2000 em diante

metade é luz e a outra
escuridão
da tua face escondida no um quarto de mim
já não sei contar
as sardas

uma boca treme e a outra enrosca
pé segue calcanhar
calcanhar e pé
uma dança um giro
de dois em dois

dos morangos sobraram a cor nos dedos
nos dentes
nem tanto e já são lavados
olha-se para a lua
por si só também é fruto

bandeirolas inquietas preveem o tempo
instável
de jaqueta faz-se abrigo
da proximidade faz-se beijo
chove feito ressaca de a mar

um tchau ao longe numa bicicleta
encheu catorze esperanças e meia
dúzia de promessas

um cão latia à porta
chegava o seu amor

com
flores dinamarquesas

sexta-feira, junho 19

é a casa azul, esquina da rua Recife

vem do alto em tormentas de vento e bate no teto de zinco
não antes da centésima milésima gota a casa é acordada pela sinfonia
são somente os pequenos ouvidos sensíveis à colisão pingo-zinco-zinco-pingo
brilho relampeado escapa por entre a folhagem do quintal e já não há sono
a procura pelas chinelas range o chão de madeira avó
canção da ventania por entre as paredes curvas tão bem desenhadas, mas não com esse fim
gota e zinco percutem enquanto o ar se move em música
ouve-se borracha abrindo passagem no asfalto molhado em velocidade
o cão geme ao som de trovões
breu tamanho que só se vê olhos de cão e a cortina de água pela luz do refletor urbano
reconfortantes são os sons da chuva
adormece no parapeito da janela semi aberta, as chinelas pendem nos pés
o retorno do silêncio desperta os mais velhos
dá-se início à busca pelo sonho perdido
do beiral pingam as últimas notas de chuva
em duas horas já é manhã no Paraná

domingo, junho 7

O infortúnio do azul

quero ver o moço
cigarro na boca
- marlboro light
calça de linho apoiada
no muro defronte
àquele sobrado

não me vem

as memórias desvanecem como
a espera e o amor
desbota

disseram
- ah, sonha comigo como alguém no futuro!