quinta-feira, fevereiro 19

Teu nu adormecido acompanhado de um texto

Acordei de madrugada com um poema na cabeça e tu dormindo do meu lado. Penumbra de quase cinco, perco o sono e o poema. Não te perco porque de súbito teu abraço forte não me deixa sentar no sofá. Teus cachos tem cheiro de ti e são da mesma cor do céu que nasce. Não quero mexer para não te despertar e o movimento do ventilador no teto já não faz sentido aos meus olhos secos de vento. No meio do teu sonho desistes do meu enlaço e me debruço na janela a ver o início da manhã. A rua dá sinais de cotidiano, não interrompido nem pela segunda-feira de carnaval. Folhas remexem, pássaros vosm e o mar bate nas pedras e no mangue por trás de tua janela. Mais um resmungo entre almofadas e são mais de seis. Deito na busca de um abraço recorrente, mas não estou inclusa no teu sonho momentâneo. Vejo o clarear enquanto dormes, teus olhos não piscam. Rolo ao contrário e a parede é incrivelmente tediosa. Rolo de volta algumas vezes na esperança de que um movimento te acorde. Teu olho é cerrado e teu sono profundo, eu sempre acordo antes de ti. Minha agitação matinal incomoda e teus braços cegos me envolvem em um sono repetido na tardia madrugada. Me permito no teu embalo de onda e de barriga pra cima estou no oceano. Um barco na minha maré viva. Uma concha no teu mar de Orfeu. Inconstante e envolta em ti. Acordo já dia com teu beijo sonâmbulo de boca fechada sorrindo nos cantos.