quarta-feira, novembro 25

Soníloquo

nossos movimentos extorquiram do teu pescoço o cheiro e transferiu para minha boca 
teus lábios pintados a rubro manchando o vestido de flores azuis
flora azul-escarlate
ecos tormentam em uníssono
beija!
pega!
rasga!
não te rasgo pois te respeito mais do que o desejo do sono
teus fios são
minhas mãos têm
embaraços e pede-me
prender os cabelos e
teus punhos
me arranca o lábio que de sangue
escorre mensalmente quente vivo
pinta a boca de azul
tule voal seda tua pele
te me rasga ao meio
num grito abafado
desce cheiro dentre as coxas
a língua percorre o gosto em gozo
afaga
arfava
algarve em mar flutua
boia
beija
brinco de pérola reflete
vermelho azul e branco

domingo, setembro 13

cor do prado & cor do mar

acordas
teus olhos tem 

cor 
- de abacate
da casca
não
de miolo adoçado 
no café
salgado no pão

(piscas em par de tempo)

cor 
de casca 
 -  de abacate
que vestes como 
capa e afasta
- feitio diplomata - 
a
faca 
que te abre em 
mãos atadas

tua entranha 
doce
deixas provar-te!

temes açúcar e sal
da colher fria qual 
te arranca e
leva 
aos beiços
lambuzam e
lavam
a castanha em cor

(brincávamos vendo nus
no caroço em meio partido)

cor
de mato mar maçã-
verde
couve re-a-fogado no cheiro-
verde
taça gelada vinho da uva
verde

& azul


"Que as ondas postas em calma
Também refletem os céus;"
G.D.

segunda-feira, agosto 24

Uma vez num sonho

você sabe como chegou aqui? 
vi no filme uma vez
que a negativa era um sonho
você lembra o caminho?
não sei quando começou
foi na curva da praia um reggae 
entre notícias de jornal 
sem alto-falantes 
você também escuta?
ninguém ouve música  
está no ar ou em meus ouvidos? 
você escuta essa música?
eu danço reggae na manhã do ônibus que corre
as árvores que correm dançam reggae
o ciclista que corre dança reggae 
o homem parado assovia reggae 
o aterro do flamengo é um reggae 
os carros que voam não dançam 
você sabe como chegou aqui? 
se lembra de acordar tirar pijamas lavar rosto 
tomar café beijar seu amor
pegar o ônibus que não tocava reggae
você ouve essa música? 

quinta-feira, agosto 20

És lindo no silêncio

Prepara o sinal dedo indicador 
para e sobe
bom dia
bom dia
encosta balança
dinheiro no bolso
dinheiro na mão
dinheiro passado
passa a bolsa
troco trocador
Solta a roleta
gira a roleta
trava a roleta
seguram meu braço
Uma mão no meu braço
absurdo abuso
uma mão no meu braço!
uma mão no meu braço
segura sem força
O olhar indignado encontra um homem sentado que sorri desconcertado e acena pro filho
filho que segura meu braço
menino especial que segura meu braço
sua mão no meu braço desliza e segura
Uma mão na minha mão
lábios que beijam minha mão
gentilmente

lábios que elogiam fechados
uma mão larga minha mão
corpo que senta ao lado do pai que sorri desconcertado e acena pra mim
Olhares sentados sorriem
sorrio balanço
caminho balanço
acredito na bondade dos elogios calados


segunda-feira, agosto 17

Maria vem comigo

quando senti vontade 
de escrever para você 
não soube o que falar
de um você tão diferente assim
poderia ser mal interpretada
se falasse dos seus cachos que amo
ou de seus olhos de contas
se dissesse que você me completa
como eu sempre busquei 
e sempre achei que seria
se garantisse a você 
que estarei aqui
sempre
porque na verdade
não tem amor maior que esse
amor por uma pessoa que eu sempre tive
que me fugiu pelos dedos
mas que voltou
a única 
a melhor
a Maria 

(agosto 2014)

__________
Eu guardei esse texto pro seu aniversário, semana que vem. Guardei por quase um ano. 
Mas seu novo aniversário vai ser hoje, ou amanhã, ou o dia em você renascer. 
Eu te amo, fique aqui.

domingo, agosto 2

Sonho de quarta-feira

dormi dançando a nossa valsa e sonhei com nossos corpos no compasso descontínuo da balada improvisada tentando acertar os passos - eu que não sei dançar sambei a noite inteira até que nascia o céu movimentos pelo espaço num xote pro amanhecer teus olhos me cantavam com silêncio verde-mar melodias pro futuro,

quarta-feira, julho 22

pont-ilhar



das ideias espontâneas da cabeça
a vida são pontos
em lista ou
ponto cruz
conferindo tarefas e enchendo
furos ou vazios
infindos

mas porém então
do caminho de um ponto
tem-se linha

no caminhar
continuum
pulam para fora da reta
seca
uma curva de pontos
fora das linhas
acidentais 

por acidente há
parábola
hipérbole
no cruzamento o encontro
tridimensional
do que era um ponto

faz-se poço
lagoa e oceano
do ponto da sombra da gota que cai
vira mar
escaldado
pelo vento contra-alísio
anunciando seca e calmaria

no parabolóide hiperbólico
a onda em ciclo
não vaza
circula

terça-feira, julho 14

ab intestato

I know a girl 
She puts the color inside of my world 
But she's just like a maze 
Where all of the walls all continually change 

dela puxou os olhos
arredondados e a habilidade de frasear
palavras feitas
redemoinho no cabelo
dourado, a cor

And I've done all I can 
To stand on her steps with my heart in my hands 
Now I'm starting to see 
Maybe it's got nothing to do with me 

dele teve o azul e as covas
no queixo e no fundo
da vida, conturbada
a mente capaz
anuviando tão bem
via genética

On behalf of every man 
Looking out for every girl 
You are the god and the weight of her world 

por convivência e crescimento
vieram apego, posse e medo
da liberdade de que foge
uma sombra que lhe cobre
os olhos no rosto
que nunca vê

So fathers, be good to your daughters 
Daughters will love like you do, yeah 
Girls become lovers who turn into mothers 
So mothers, be good to your daughters too 

dedos pequenos o sorriso
de quem herdou mistério
a coragem veio
dos dois construída
bloco a bloco
e tempo

segunda-feira, julho 13

Terra, mar e ventania

Rio se põe para mim
como fez Lisboa
há um ano

o céu era outro
o amor era outro
eram outros os planos

o sol era o mesmo

(novembro 2014)

quinta-feira, julho 9

fra København

Ciclovia à meia noite
Vento nos rostos
Corpo aberto
Coração cheio
Sorriso abusado
Nenhum vazio sobrou para a solidão e tristeza de antes 

(junho 2014)

sexta-feira, julho 3

Sal

o oceano atlântico
entende-se por
46283947
quilômetros e toca
ao mesmo tempo
minha terra e
meus pés
não se tocam
no entanto
sentem
saudades

(novembro 2013)

terça-feira, junho 30

Falsa compilação de amores dos anos 2000 em diante

metade é luz e a outra
escuridão
da tua face escondida no um quarto de mim
já não sei contar
as sardas

uma boca treme e a outra enrosca
pé segue calcanhar
calcanhar e pé
uma dança um giro
de dois em dois

dos morangos sobraram a cor nos dedos
nos dentes
nem tanto e já são lavados
olha-se para a lua
por si só também é fruto

bandeirolas inquietas preveem o tempo
instável
de jaqueta faz-se abrigo
da proximidade faz-se beijo
chove feito ressaca de a mar

um tchau ao longe numa bicicleta
encheu catorze esperanças e meia
dúzia de promessas

um cão latia à porta
chegava o seu amor

com
flores dinamarquesas

sexta-feira, junho 19

é a casa azul, esquina da rua Recife

vem do alto em tormentas de vento e bate no teto de zinco
não antes da centésima milésima gota a casa é acordada pela sinfonia
são somente os pequenos ouvidos sensíveis à colisão pingo-zinco-zinco-pingo
brilho relampeado escapa por entre a folhagem do quintal e já não há sono
a procura pelas chinelas range o chão de madeira avó
canção da ventania por entre as paredes curvas tão bem desenhadas, mas não com esse fim
gota e zinco percutem enquanto o ar se move em música
ouve-se borracha abrindo passagem no asfalto molhado em velocidade
o cão geme ao som de trovões
breu tamanho que só se vê olhos de cão e a cortina de água pela luz do refletor urbano
reconfortantes são os sons da chuva
adormece no parapeito da janela semi aberta, as chinelas pendem nos pés
o retorno do silêncio desperta os mais velhos
dá-se início à busca pelo sonho perdido
do beiral pingam as últimas notas de chuva
em duas horas já é manhã no Paraná

domingo, junho 7

O infortúnio do azul

quero ver o moço
cigarro na boca
- marlboro light
calça de linho apoiada
no muro defronte
àquele sobrado

não me vem

as memórias desvanecem como
a espera e o amor
desbota

disseram
- ah, sonha comigo como alguém no futuro!

quarta-feira, maio 20

Males da mente & desafios

Você está em uma caixa. Ela não ter cor. Não tem textura ou materialidade. Ela nem sequer existe. Mas você está dentro desse caixa e ninguém te colocou lá. Ela surge como um domo em volta de ti e não te perguntaram e nem te deram motivos para estar dentro dela. Você está em uma caixa. A caixa aperta, mas seu corpo ainda se mexe. Seu corpo mexe tentando livrar-se do limite invisível que ela impõe, mas o limite não cede. O ar não está rarefeito, contudo você não respira. O peito pesa como se houvesse uma rocha sobre ele, porém está livre, e pesa, e dói. O corpo assume repetições de movimento na esperança de que algum o liberte. Arranha, coça, levanta & senta, aperta os cabelos, puxa peles, arranca fios. O corpo se desespera por não se livrar da caixa e ela engrossa, inviolável. A mente já não reflete. A mente se perdeu no momento em que criou a caixa. O limite é fruto da mente e a exclui de todo processo de libertação. Teu corpo tenta alcançar a mente que está do lado de fora a voar tão rapidamente, mas não se liberta da caixa. O coração dispara e entra em arritmia. Quer pular do peito, sair da rocha, rompe-la e fugir de tudo. No entanto mal tem forças para bater e de tão rápido parece parar. A caixa é uma bolha. Se alguém estende a mão e toca a bolha, atinge o peito e o domo se espatifa no chão. É como se nunca tivesse existido. A caixa é um pedido de ajuda. O estender da mão é o abraço, o carinho, a preocupação, o importar-se. É algo específico que se precisa ouvir e que também não sabe. Não é por carência, é por desespero. É a crise. É ansiedade. A ansiedade é uma caixa em um ciclo que não se pode quebrar sozinho.

sábado, maio 2

Já dizia Maria

- Eu mergulhei em ti pra me afogar, oceano.

Desenho: Huebucket

convergir

travesseiro com teu cheiro
&
tua escova no banheiro
de certo
rimam

(desencontram-se num infinito qualquer)

segunda-feira, abril 27

Naufrágio

Bem aventurado, aquele que se entrega à maré a perder conta do céu, deixa-se envolver no mar e por fim não afoga.

domingo, março 29

Vi você deitado e não soube o que falar

perdi todas as palavras e sumiu minha voz  teus olhos nem tinham aberto e eu já não sabia o que dizer
- bom dia 

dormindo sonâmbulo de olhos fechados  não sabia se eu era seu sonho ou se já amanhecia  eu não tinha o que falar  perdi o dom das frases ! o que vem primeiro ¡ o verbo o nome ¿ a exclamação ? palavra ? os músculos do rosto travaram e não se pronunciam além do hmm que se esconde no teu ombro  palavra dita é som  o som dito tem significado  eu só via seus olhos abrindo  você me olhava e eu não sabia o que dizer
- b… dia

vira de lado e me envolve no teu braço então eu finjo não precisar de palavras   interjeições são palavras ou sons ? interjeisons ¿ o som precisa ter um nome ? pode ter um nome  pode ser um som
- tcahmo

(despedida ou declaração)

- vem cá
acordar do teu lado é uma jornada muda

terça-feira, março 17

Ouvi sua voz de surpresa num início de noite

- tá ouvindo esse barulho? 
- não tem ninguém lá fora
- mas eu ouvi um barulho
- é o vizinho
- você tem certeza? 
- quer que eu feche a porta? 
- quero
- deita comigo
- será que eles ouvem a gente? 
- ouvir como? 
- pela janela do banheiro
- acho difícil
- será que eles ouvem a gente falando de amor? 
- devem ouvir a gente fazendo amor
- que barulho é esse? 
- tá vindo de fora
- que quebrem todas as panelas! 
- tem até fogos! 
- me dá uma ânsia, sensação de mal estar geral... 
- um arrepio bizarro, um asco pelas pessoas... 
- agora jogam futebol
- não gosto de silêncio pra varrer, você não põe música? 
- não tenho o costume, posso criar
- vou mostrar umas composições que fiz
- quero ouvir todas! 
- incrivelmente não errei nada desse vez, sempre erro as notas com você
- queria tanto cantar bem... 
- tudo bem, também não sei cantar
- você tá falando comigo? 
- uhum
- não dormiu nada até agora? 
- pelo visto não
- tá acordado? 
- uma pena a gente não poder fazer nada, né? 
- acho que você fala dormindo 
- sério? 
- conversei com você e você dormia 
- não lembro
- tá ouvindo esse barulho? 
- não ouço nada
- exatamente...

quinta-feira, fevereiro 19

Teu nu adormecido acompanhado de um texto

Acordei de madrugada com um poema na cabeça e tu dormindo do meu lado. Penumbra de quase cinco, perco o sono e o poema. Não te perco porque de súbito teu abraço forte não me deixa sentar no sofá. Teus cachos tem cheiro de ti e são da mesma cor do céu que nasce. Não quero mexer para não te despertar e o movimento do ventilador no teto já não faz sentido aos meus olhos secos de vento. No meio do teu sonho desistes do meu enlaço e me debruço na janela a ver o início da manhã. A rua dá sinais de cotidiano, não interrompido nem pela segunda-feira de carnaval. Folhas remexem, pássaros vosm e o mar bate nas pedras e no mangue por trás de tua janela. Mais um resmungo entre almofadas e são mais de seis. Deito na busca de um abraço recorrente, mas não estou inclusa no teu sonho momentâneo. Vejo o clarear enquanto dormes, teus olhos não piscam. Rolo ao contrário e a parede é incrivelmente tediosa. Rolo de volta algumas vezes na esperança de que um movimento te acorde. Teu olho é cerrado e teu sono profundo, eu sempre acordo antes de ti. Minha agitação matinal incomoda e teus braços cegos me envolvem em um sono repetido na tardia madrugada. Me permito no teu embalo de onda e de barriga pra cima estou no oceano. Um barco na minha maré viva. Uma concha no teu mar de Orfeu. Inconstante e envolta em ti. Acordo já dia com teu beijo sonâmbulo de boca fechada sorrindo nos cantos.


quinta-feira, janeiro 22

Fazer

de tudo
cais

de mim
maré

de você
oceano

sábado, janeiro 17

Das vezes em que eu desisti de você nessa semana

hoje eu desisti de você 
na fila do caixa 
no café amargo 
no leite azedo 
na chaleira que chiava 

desisti no trânsito 
parado 
no sinal fechado 
parado 
no sinal aberto 
parado 
(e andou) 

desisti na mensagem que não teve resposta 
e só voltou no dia seguinte 

na boca de outra 
nos braços de outras 
desisti de você em mim 
pois estava também em outras 

te desisti na fadiga 
na ânsia 
no nervoso impassageiro 
te desisti em pensamento e nunca em ação 
(o verbo desiste em desistir!) 

desisti de você na minha crise 
no meu choro
na minha incompreensão 
desistir de você é desistir de mim 
(e eu sempre achei que sabia mudar) 

desisti de você na sua liberdade. 
(ação seguida de inveja) 

desisti quando só foi preciso 
um sorriso 
para desdesistir 

(desisto porque não desistir ou é força ou é paixão)