quarta-feira, fevereiro 12

Mais uma

Essa é uma carta para você.
Pois é, de novo.


Se você soube esperar, é dezembro de dois mil e dezenove e há pouco você completou vinte e oito anos. Acho que você nunca imaginou como seria ter vinte e oito anos.

Junto com essa carta está o seu planejamento de vida, um que você fez numa noite angustiante do início de fevereiro, em um país do norte do qual você não fala ainda hoje nenhuma palavra – tenho certeza. Se eu te conheço bem, você se lembra muito bem. O você daquela época estava confusa entre ir ao norte ou ao sul, entre direitas ou esquerdas, entre se libertar ou não ter medo. Acho bom refrescar sua memória, caso você tenha finalmente conseguido esquecer aquele janeiro. É, a gente gosta de lembrar das coisas que doem.

Foi o janeiro mais triste da sua vida. E você continuou falando isso até ter encontrado outro janeiro tão ruim quanto – o que não é difícil, já que janeiro nunca foi seu mês favorito. Uma metade de ano cega e escondida que resolveu falar arranhou seu coração. Arranhar é pouco, mas eu sei que você não gosta desse drama do sofrimento. O pior problema pra você foi seis meses passados destruírem seus planos para os seis meses futuros. Afinal, quem é você sem seus planos? Sei tão pouco como você lidou com isso. Só sei que você deixou claro que eles te perderam. Já te encontraram ou você nunca se deixou encontrar? Essas coisas que se passaram por sua cabeça nesse inicio de ano, foram duras. E o jeito que você encontrou pra fugir delas está aqui.

Você fugiu para um futuro onde tudo era possível para fugir desse passado que você não pode controlar. É doloroso para você perder o controle. O melhor que você pode imaginar, foi lá onde você se escondeu. Um futuro cuja única função era sobrepor-se ao passado, redimi-lo, substitui-lo. E se ele nunca chegou, então, você se perdeu? Ah, essa relação de amor e ódio com o perder-se! Queria saber o quanto do seu futuro era ilusão e o quanto podia ser real. Naquela época aquilo te torturava. Você queria tanto saber do que era capaz que talvez nunca fosse tentar – mentira, você nunca deixaria de tentar. 

Você ainda acha que vinte e oito é quase trinta? Você não achava que dezoito era quase vinte. Mas eu ainda acho que vinte e oito é quase trinta. Trinta. Como foram seus vinte anos? Provavelmente completamente diferente do que você imaginou – até porque você só se imagina num futuro para fugir. Mas nosso físico não pode fugir pro futuro, vai estar sempre preso a esse tempo que você nega e chamam presente. Até a hora que ele vai virar passado pra sempre. Mas eu sei que você não virou passado. Você não gosta de passado, nunca escolheria pertencer a ele. O passado não tem espaço para suas intermináveis ideias e planos.Apesar disso, você sabe que o passado conforta, um cobertor que esquenta e uma meia de lã, mas também pinica.

Na verdade, muita coisa para você pinica. Apesar de não ser seu preferido, porque te dá borboletas demais e te faz enrubescer, o hoje tem uma função. É só nele que você pode se abrir. Abrir os poros para todas as sensações, por mais que o excesso de estímulos te faça mal. Prender o cabelo e ouvir o que a memória não lembra e a imaginação não reproduz. Fechar os olhos e tentar imaginar os rostos das vozes – e então abrir e descobrir-se sorrindo. O sol do norte em um rosto sem calor e o vento do sul em um rosto sem frio. Sensações. Essas são as lições que o agora te dá.

Quanto tempo demorou para você exercer o presente na sua vida? Quando você parou de fugir para o futuro? Acho que você nunca parou. Porque mentes que imaginam amam o futuro. Eu sei que você conseguiu equilibrar. Eu sei que hoje você sente.

Você sabia, você sempre soube. Não podemos saber o desenrolar da nossa história, porque nós temos que criá-la. Sem criação não há história. É simples, como os morangos com os quais você manchou essa carta.

Será que no final, viver é criar essa conexão maravilhosa e única entre passado, presente e futuro?
Um dia, quem sabe.

Um beijo, pra você que não é pessoa de aperto de mão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário