segunda-feira, dezembro 29

Debochado

Não gosto de como me lê como se já soubesse tanto de mim. Não é só porque tem alguns anos a mais de observação que de repente me tornei tão fácil assim - ou sou fácil ou sou burra, o que demorei anos para aprender você não pode conseguir desvendar em dois piscar de olhos e três palavras mal pensadas. Também não gosto como gosta e desgosta de mim. Você me deixa confusa insegura ansiosa, na expectativa dúvida esperança eterna de chegar uma mensagem sinal de vida de fumaça vindo de uma infinita distância espaço-temporal. Me desagrada especialmente seu jeito tão seguro e certo de si, como se fosse imune às dúvidas que me atacam sem dó quando eu penso em você em mim em você. Desgosto do meu tentar tão forte em não gostar por demais, por receio desgosto apreensão de me machucar. Não gosto de ter de pensar em cada palavra com medo do teu olhar que me julga e teu sorriso que me abate. Me machuca não, me cura, que de temor já me basta o escuro. Me embaralha esse seu jeito de me encaixar na sua vida me fazendo sentir presente e depois me sumir de ti como se para dar espaço para outras - e eu vou odiar quando você chamar isso de ciúmes! Esse teu morde e assopra como você definiu me arde de dor e prazer e me confunde até a raiz. E tudo isso se resume no teu peixe que eu até quase penso às vezes talvez que é também um pouco meu e que é a junção desse seu deboche irônico conquistador. Se até do seu cigarro eu aprendi a gostar, deixa de ser difícil de decifrar descobrir adivinhar assim e guarda pra gente o gostar fácil leve livre que eu nunca consegui ter. Me deixa leve que eu voo e te levo comigo. Se há tanto pra desgostar assim quer dizer que eu te gosto muito já.

domingo, dezembro 28

¿Alguna vez pensaste que había escrito sobre usted?

Nas noites de cobertores
Quando as luzes já se foram
Um frio de borboletas
Toma conta desse corpo
Cabeça a mil
Coração a dois mil
Nuvens de pensamentos
O beijo
Tão nosso
Tão teu
Afaga lá de longe
No tempo e no espaço
Passa a mão por meu cabelo
Desce até minha cintura
Me olha no fundo dos olhos
E são teus
Negros do céu noturno
Daquela noite de junho
Eu vejo
Eu sinto
Eu mudo o lado
Incrivelmente
O que acalma meu corpo
É a mesma lembrança
Abraçando, aquecendo
Aconchegando
Embalando o sono nas memórias do futuro.


__________
Pra fechar o ano com o doce que foi junho.

quarta-feira, novembro 26

domingo, novembro 23

Da volta

por fim, estava pronta
tão pronta para voltar como esteve para ir

uma prontidão fingida
que só nos serve para acalmar os nervos
possibilitar noites dormidas
sossegar as borboletas

tão fingida quanto teimosa
como uma criança tão segura de si
que desce a rua voando
coração a mil
sorriso no rosto

tão teimosa quanto feliz
tão feliz quanto triste
tão triste e tão pronta

__________
das coisas que eu perco por aí

sexta-feira, novembro 21

R.S.V.P.

dois cafés
eu e você
sábado às dezesseis
não ou talvez? 

terça-feira, outubro 28

Cansei
De você
E você
E você
E você
E você.

(Vocês de menos para tanto desgosto)

Agora só serei
eu.

quarta-feira, outubro 22

Antes de chover

O ar seco
Não vem do vento
Desse outubro quase dezembro
Que deseja virar junho
Vem da sua boca
Suas palavras vazias
Inexistentes
Que machucam tanto quanto
Ardem
Tanto quanto
Quero
Tanto quanto
Odeio

segunda-feira, outubro 20

tu

meu problema
tem seu nome 
e o apelido carinhoso
de saudade 
ou solidão.

sábado, outubro 18

Um poema ruim sobre um tema ridículo

Se eu ainda sinto
Esse aperto no estômago
Se ainda te vejo
Nos anúncios da tv
Se eu ainda lembro
De você naquela música
Se ainda me pergunto
Onde diabos está você
Não quer dizer que eu te amo
Ou que não te superei
Só é prova dolorosa
Do quanto você me teve
 E não mais quis
 (E pare com essas indiretas
Ridículas
Que te quero fora
Da minha cabeça
Da minha vida)

domingo, outubro 5

Descongelar

Vejo suas fotos
Conversas passadas
De tanto tempo
Ainda aquecidas
No meu peito
Só para sentir
Por alguns instantes quietos
Que ainda estamos
No mesmo país
Que vou te ver amanhã
Por um acaso calculado
Na fila do almoço
E te sorrir
De longe
Como agora
Para essas memórias
De aquecer os corações
Nos dias frios

domingo, setembro 28

Passagens ou Também sobre usted

Amores não vividos
Amores já guardados 
Amores adiados
Amores embrulhados 
Pra presente 
Pro futuro
Amores de gaveta 
Amores no tempo
Nunca no espaço
Não amores esquecidos
Mas amores aquecidos
Debaixo do peito
Esperando 
Amores perdidos?

O que acontece com os amores não vividos? 

sexta-feira, setembro 12

Cielo

Mais uma gota
Da tua boca
E é paixão.

__________
Sobre junho e outras vidas.

domingo, setembro 7

Impressões

Hoje acordei
E tive certeza 
de que chovia.
Lá fora o sol brilhava.
Era só aqui dentro.

domingo, agosto 17

Existem muitos você nesse mundo

Meu suspiro de tão longo
Cruza as Américas
Sobrevoa mil florestas
Rodopia por tua janela
E chega em ti
Como um sopro
Que mal vistes
Pois fechavas os olhos
Sonhando com otras mujeres
Distante demais de mim

quarta-feira, julho 30

Sobre o voltar depois do ir

Duas semanas depois de voltar pra casa, meu quarto parece vazio. O que está aqui já significa muito pouco ou nada para mim. O que vejo são excessos e pesos extras. Com poucas exceções, poderia me livrar de tudo. As memórias, os sentimentos que me trazem não me são mais borboletas. Acho que finalmente aprendi a viver o presente. Eu tenho vivido um dia após o outro, mas minha vida anda chata. Não sei o que esperava depois desse ano em que nenhum dia foi igual. Não sei o que esperar da vida. Tento fazer mil planos, querendo planejar o futuro, mas já não consigo viver o futuro como antes. Eu quero o agora. Quero ver a vida acontecer agora. Não quero mais esperar pelo fim de semana, pelas ferias de verão, por quando eu me formar. Quero que cada dia faça parte da minha vida, como foi nesse ultimo ano e como nunca havia sido antes. Escrevo para não perder esse sentimento, pois sinto que a qualquer momento vou esquecer dessa sensação e voltar a quem eu era. Eu não quero! Não me deixe voltar ao meu antes! Aprendi e vivi tanto nos últimos 12 meses que não dou conta de processar, de guardar tudo e de lembrar depois. Morro de medo de esquecer. Talvez o medo já seja motivo o suficiente para lembrar a mim mesma de tudo o que aprendi. Gosto de mim há como muito tempo não gostava e sinto que não me encaixo mais aqui. Meu lugar ainda está aí, em alguma parte que eu ainda não descobri. Não é Copenhague, não é Rio de Janeiro. É longe mas é perto. É lá e aqui. Sinto vontade de sair e não voltar, simplesmente pelo sentimento de deixar coisas para trás, assim como cada lugar se deixou um pouco dentro de mim. Aprendi a lidar com o partir e partir nunca pareceu tão fácil. Não vejo mais barreiras físicas ou mentais. Não tenho mais correntes e nada me prende ao chão. Por isso que eu quarto, de tão cheio me parece vazio e pesado. Sinto que ele me prende e exige de mim um comprometimento com o passado que não sinto mais. Não quero tantos bens, não preciso de tantos livros muito menos dessas roupas. Quero viver minimalista. Me dê uma mochila e uma câmera fotográfica que eu vou rodar o mundo.

terça-feira, julho 29

Sobre andar e mundo

Minha mãe reclamava
Desde minha meninice
Que eu tinha pregos na sola 
Arrastava tudo pelo caminho
E não levantava os pés para andar
Mas hoje, mãe querida,
Saiba que carrego comigo um tanto
De terra, grama e coração
De todos os lugares que fui
O que não seria possível
Se meus pés não roçassem o chão

terça-feira, julho 22

Da viagem

O grande problema da poesia
É ser sem vergonha
E atirar assim sem aviso
Meus sentimentos pelo mundo

segunda-feira, julho 7

Vida normal

Janelas brancas 
Porta azul 
Escada caracol 

Sala com fotografias
Casa de cachorro
Balanço no quintal 


Uma árvore com nome
Um esconderijo secreto
Dois ovos de rouxinol


Luz da manhã na janela
A risada dos três filhos
Borboletas no beiral


Chico faz um desenho
Toni me dá um beijo
Cissa, um girassol


Sol para dar sombra
Terra para dar lama
Seu sorriso lendo o jornal


Quero essa folga:
Domingos de chuva,

Sábados de sol.

quinta-feira, maio 22

por três segundos

a capa vermelha nas mãos 
falava de segredos que sempre soube 
e ninguém nunca contou
os pés tocavam o chão
nus
descalçados
roçavam a grama 
e há muito tempo não apreciavam roçar
cada dedo abraçando uma folha
e não sentiam cócegas
o calor que dominava o corpo
vinha do céu
do infinito
do pano de fundo azul que brilhava
e aquecia
a pele queimada gritava de satisfação 
 - é verão! 
e ficou feliz em ter sardas
e foi grata por não ser capaz de encarar a luz
era feliz porque sentia
e sentia todos os sentidos ao mesmo tempo 
completava sem transbordar
e enfim sentiu-se bem 

chão verde fundiu-se com a camisa branca

quinta-feira, maio 15

entalado

tanta coisa acontecendo nesse quarto
nessa cama que não é minha
na minha cabeça, redemoinho
nada sai, tudo fica
enche, mas me esvazia

me transborda ou me cala!

segunda-feira, abril 7

2013

são dez mil
duzentos e cinco
quilômetros entre nós


mas tem essa hora
do dia ou da noite
em que não muda a lua
em que não muda o sol


é quando eu mando pelo vento
as mensagens que escrevi pra ti.
__________
Dos que se perderam por aqui.

segunda-feira, março 31

Primavera muito ao norte do equador

quase comecei
mais um poema com "se"
quando vi pela janela
o dia.
não havia lugar
para suposição.
tudo já estava ali.
me tirou as palavras
e se fez fotografia:




quinta-feira, março 6

De janeiro, completo

As janelas choram uma música
Que antes pertencia ao seu canto e meu ouvido
Enquanto o vento espalha as lágrimas
Que você deixou pra mim

(O presente que aceitei
Porque veio de você)

As minhas costas se desdobram
Para tentar fechar
O que as palavras abriram
Mas arde e sangra em forma de chuva

Uma carta sua que não é para mim
Veio molhada pelo correio
E demorou quatro anos
De um verão que não chega nunca
- na minha vida ou nesse país -
Para ser aberta por você

Nunca achei que uma palavra
Fosse soar tão estranha
Mas a única que encontro para você
É fim.

E isso nem seria uma rima,
Só uma solução.

__________
Sem aquele pensar de novo que nos fazem editar tudo.

sábado, março 1

Sonho

Um banho
Sem roupa
Corpo seco
A pele
Brisa fria
Arrepios
Minhas costas
Seus dedos
Macios
Deslizam
Contornam
Desenham 
Dois olhos
Quatro olhos
Fechados
Respiram
Exalam
Você 
E toda essa eternidade.

domingo, fevereiro 23

Aqueles dias

Um único desejo de sentir
O vento e um pedalar
Rápido demais para os joelhos frágeis.
Senti-los doer.
Sentir o rosto arder.
Mas não parar.

Se eu correr demais
Eu chego até você?

domingo, fevereiro 16

O poder dos dias

Eu espero de alma nua
Um dia que a coragem tua
Vier me conquistar de novo...

sábado, fevereiro 15

O poder dos três

1.
Os pés param e os olhos procuram.
O fim do último balance dos braços.
A mesma expressão em todos os rostos.
A espera.

2.
Um silêncio.
Corpos tentando adivinhar o próximo movimento.
Luz que some e depois volta.
Um gole.

3.
Um sorriso de relance.
O novo ritmo envolve.
Os pés se movem.
Os braços dançam.

A eternidade de três segundos.
A espera de uma música.

quarta-feira, fevereiro 12

Mais uma

Essa é uma carta para você.
Pois é, de novo.


Se você soube esperar, é dezembro de dois mil e dezenove e há pouco você completou vinte e oito anos. Acho que você nunca imaginou como seria ter vinte e oito anos.

Junto com essa carta está o seu planejamento de vida, um que você fez numa noite angustiante do início de fevereiro, em um país do norte do qual você não fala ainda hoje nenhuma palavra – tenho certeza. Se eu te conheço bem, você se lembra muito bem. O você daquela época estava confusa entre ir ao norte ou ao sul, entre direitas ou esquerdas, entre se libertar ou não ter medo. Acho bom refrescar sua memória, caso você tenha finalmente conseguido esquecer aquele janeiro. É, a gente gosta de lembrar das coisas que doem.

Foi o janeiro mais triste da sua vida. E você continuou falando isso até ter encontrado outro janeiro tão ruim quanto – o que não é difícil, já que janeiro nunca foi seu mês favorito. Uma metade de ano cega e escondida que resolveu falar arranhou seu coração. Arranhar é pouco, mas eu sei que você não gosta desse drama do sofrimento. O pior problema pra você foi seis meses passados destruírem seus planos para os seis meses futuros. Afinal, quem é você sem seus planos? Sei tão pouco como você lidou com isso. Só sei que você deixou claro que eles te perderam. Já te encontraram ou você nunca se deixou encontrar? Essas coisas que se passaram por sua cabeça nesse inicio de ano, foram duras. E o jeito que você encontrou pra fugir delas está aqui.

Você fugiu para um futuro onde tudo era possível para fugir desse passado que você não pode controlar. É doloroso para você perder o controle. O melhor que você pode imaginar, foi lá onde você se escondeu. Um futuro cuja única função era sobrepor-se ao passado, redimi-lo, substitui-lo. E se ele nunca chegou, então, você se perdeu? Ah, essa relação de amor e ódio com o perder-se! Queria saber o quanto do seu futuro era ilusão e o quanto podia ser real. Naquela época aquilo te torturava. Você queria tanto saber do que era capaz que talvez nunca fosse tentar – mentira, você nunca deixaria de tentar. 

Você ainda acha que vinte e oito é quase trinta? Você não achava que dezoito era quase vinte. Mas eu ainda acho que vinte e oito é quase trinta. Trinta. Como foram seus vinte anos? Provavelmente completamente diferente do que você imaginou – até porque você só se imagina num futuro para fugir. Mas nosso físico não pode fugir pro futuro, vai estar sempre preso a esse tempo que você nega e chamam presente. Até a hora que ele vai virar passado pra sempre. Mas eu sei que você não virou passado. Você não gosta de passado, nunca escolheria pertencer a ele. O passado não tem espaço para suas intermináveis ideias e planos.Apesar disso, você sabe que o passado conforta, um cobertor que esquenta e uma meia de lã, mas também pinica.

Na verdade, muita coisa para você pinica. Apesar de não ser seu preferido, porque te dá borboletas demais e te faz enrubescer, o hoje tem uma função. É só nele que você pode se abrir. Abrir os poros para todas as sensações, por mais que o excesso de estímulos te faça mal. Prender o cabelo e ouvir o que a memória não lembra e a imaginação não reproduz. Fechar os olhos e tentar imaginar os rostos das vozes – e então abrir e descobrir-se sorrindo. O sol do norte em um rosto sem calor e o vento do sul em um rosto sem frio. Sensações. Essas são as lições que o agora te dá.

Quanto tempo demorou para você exercer o presente na sua vida? Quando você parou de fugir para o futuro? Acho que você nunca parou. Porque mentes que imaginam amam o futuro. Eu sei que você conseguiu equilibrar. Eu sei que hoje você sente.

Você sabia, você sempre soube. Não podemos saber o desenrolar da nossa história, porque nós temos que criá-la. Sem criação não há história. É simples, como os morangos com os quais você manchou essa carta.

Será que no final, viver é criar essa conexão maravilhosa e única entre passado, presente e futuro?
Um dia, quem sabe.

Um beijo, pra você que não é pessoa de aperto de mão.

domingo, fevereiro 9

Sobre frutas de um verão

hoje comprei morangos
tão doces quanto
nosso primeiro beijo
e me fez lembrar
que você não acredita
na doçura dos morangos.

domingo, fevereiro 2

Meu coração não é vasto

Nunca achei que uma palavra pudesse soar tão estranha
mas a única que eu encontro
para você
é fim.

(E não seria uma rima,
tão pouco uma solução)

quarta-feira, janeiro 8

De quando eu não acreditei

Se o corpo treme,
A mente não foca
E choro,
Desesperada,
A culpa não é sua.

São dos dias.
Das palavras vazias,
Das mentiras infinitas.
Eu tola acreditando.

Você, não se preocupe
Que o tremor passa
O coração acalma
A alma chora.

O tempo há de cicatrizar.

O corpo dói 
para me lembrar 
Que confiança também 
morre.
E morrer machuca.