quinta-feira, julho 16

Desadesivar

Aquele retrato, rasguei-o.
Apaguei todas as linhas daquela carta
e soprei todos os ciscos de cima da mesa.
Fechei a caixa, lacrei-a.
Está no fundo do armário
junto com os fatos restantes.
A música, eu esqueci.
A parede está vazia e os papéis não reclamaram.

Eu estou bem.

Não houve nem um grito,
nem um murmúrio,
nem um suspiro vindo do canto.
As imagens calaram-se,
o tempo as aquietou.
Arquitetei um novo mundo meu.

Não falarei mais em arrependimentos.

Enquanto desbotam, as fotografias se calam.
A cor sai e lhes rouba a voz.
O tempo escorre e lhes toma a cor.
Eu passo e esqueço a hora.

Santa hora para esquecer, que boa hora!

Um laço de fita para garantir sua inércia e seu fim.
Ah, se esse fosse o final de todos os livros...

4 comentários:

  1. Eu estou bem.

    Não houve nem um grito,
    nem um murmúrio,
    nem um suspiro vindo do canto.


    lembrei de uma frase: " tenho medo de ser feliz pra sempre."

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  2. Embora você corra o risco de acabar não aprendendo nada ao esquecer tudo, realmente seria ótimo se todos os livros acabassem assim.
    E o passarinho está incrível, chegou ao nível da Boláguia, hauahuaha

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  3. Ah , quem me dera escrever linhas tão belas!

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  4. Não consigo me desfazer de lembranças... Acho que, de alguma forma, sempre estou estacionada no passado. Não preciso dizer que me identifiquei em certas coisas, né? Mas fico feliz que você tenha se libertado dessa fase, como a Majú diz, ''você estava presa ao futuro do pretérito'', e consequentemente também estava presa ao pretério perfeito. Seus ''e se...?'' eram sempre baseados no ''foi''. But with a little help from our friends, we can do it all =)
    Por isso, acredito que minha vez está para chegar também. Ié!

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