quinta-feira, janeiro 15

Enquanto isso, na AFA...

“Eu sou Germânia Patinho*, tenho 17 anos e sou uma fotografólica. As pessoas chamam-me de maluca, dizem que não é saudável, mas não consigo me livrar deste vício; é algo que me persegue 24 horas por dia.

Já tentei muitas coisas, mas não é possível abandonar minha máquina, meu objeto do mal. É como se estivesse grudada em mim: suas engrenagens se confundem com as minhas e nos tornamos um só ser que não vive sem o outro... É realmente desesperador quando não posso levá-la para toda parte. Chamem-me de fraca de espírito, mas não consigo largar a mania de ver ângulos em cada paisagem, enquadrar cada cena, conferir o balanço de luz e criticar quando algo está claramente errado. Estes são os maiores problemas que o vício me traz.

Quando uma situação me intriga, quando a luz se acende em minha cabeça, a câmera vibra nas minhas mãos e não há meios de controlá-la, é como se ela agisse sozinha. E, feito mágica, ela emite aquele clique maravilhoso que exalta todos os meus músculos e então dispara; não só para dentro de si mesma, mas também para dentro de mim.

Esse vício já perdura por onze anos, desde que foi oferecida (pela minha mãe, quem diria!) aquela máquina mortífera disfarçada de rosa e com desenhos infantis de ursos polares e pingüins. A partir de então, não tive mais sossego; muito gastei em rolos e mais rolos, só para satisfazer esse prazer imenso que me traz apertar aquele botão e sentir a adrenalina correndo em minhas veias. Quando surgiu o modo mais sofisticado de atingir esse estado de espírito, onde não mais se precisava dos caros rolos, mas sim de pequenos retângulos azuis, é que tudo saiu do controle de vez: ninguém mais poderia me segurar àquela altura. Para todo canto e a todo instante eu estava com o meu objeto de vício e isso só foi piorando com o tempo, me consumindo aos poucos. Eu tinha que aprimorar e elevar o nível cada vez mais, se não nada me satisfaria.

Hoje venho aqui à Associação dos Fotografólicos Anônimos para trocar experiências e, contra a vontade dos médicos, dicas para aprimorar a arte de escrever com a luz. A fotografia nada mais é do que ver o que quase ninguém mais vê. Essa é a melhor sensação de todas e é o que leva os que vêem o mundo com um olhar diferente quererem mudá-lo; há uma necessidade em cada um de nós de preservar essa visão para sempre na memória, na memória humana. Isso é algo que nenhuma máquina escritora a base de luz conseguirá fazer.”

* Os nomes foram modificados para preservar a identidade dos envolvidos.

3 comentários:

  1. Sortuda, pode andar com o objeto que vicia por todos os cantos sem parecer autista.

    Esse texto me surpreendeu. Em grande parte porque eu estava crente que você falaria sobre a aeronáutica ou sobre a seleção argentina de futebol, mas também por sua interessante definição de fotografia. Parabéns.

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  2. Um dos textos sobre fotografia e fotógrafos mais brilhantes que já lí. Meu vício não é tão grande como o seu, acho que de vez em quando ainda consigo me controlar, porém, mantenho outros vícios tão incontroláveis quanto. Adoro fotografia como amo música. É minha primeira vez aqui, mas adorei seus textos. Parabéns.
    Márcio R. Bacha
    www.esqueciaschaves.net

    P.S.: Obrigado pelo link. Estou devolvendo e linkando vc tbm. beijos.

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  3. Adorei. Você escrevendo sobre fotografia só poderia sair algo realmente bom. Primeiro que você escreve super bem, visto que um elogio seu sobre um texto meu já me deixa inteiramente lisonjeada (em outras palavras, me sentindo, haha). Segundo, ainda escreve sobre fotografia, algo que você neeeeeeeem faz bem! Aliás, tou pensando em fazer uns cursos com você. Sabe como é, uma das minhas opções pro vestibular é comunicação social, e se dentro dela optar por jornalismo, terei que saber ao menos o mínimo sobre esse seu singelo hobby que em sua mãos parece mais vocação. Beijos!

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