domingo, outubro 1

põe o dedo no primeiro nó que é pra gente não perder o aperto do laço

em cruz duas vezes tranço o cetim e você me passa um pedaço de fita que é pra prender o papel de embrulhar
compramos nas lojas americanas no mesmo dia um chocolate roubado e fazia muito tempo em que eu não olhava a sessão de artigos para casa
coleciono todos esses potes que vêm da minha mãe e nunca voltam e os seus eu devolvo sempre vazios
não sou grande cozinheira mas sei me virar e até tenho panela de pressão e farofa pra quando você vem
me arranja uma bolsa pode ser mesmo de pano que a gente se atrasa mas pelo menos vai bonito
todos os tons de ocre ficam lindos na sua pele mas quis vestir aquele mesmo azul de três anos atrás
uma vez minha calça e sua camisa eram do exato tom de verde e a gente riu com os sapatos da mesma cor
todo tênis preto que é meu preferido fura certeiramente no lugar do calcanhar direito por onde entra água e no verão eu compro um novo
já ameaça o tempo e tiro um guarda-chuva que você não quer dividir porque gosta das gotas no rosto
até nos dias cinzentos lá vai montado na bicicleta e eu gosto de te ver dar oito voltas mesmo ficando em pé
queria também andar contigo só que botafogo é longe e não se cruza a linha vermelha a não ser motorizado
dou caronas até pontos de ônibus quaisquer e sua música falha aos poucos quando sigo meu caminho
todas as pistas são repletas de perguntas que deixam dúvidas porque eu não devo digitar enquanto dirijo
tem sempre duas rotas mas acontece que eu gosto mais de antônio e podia muito bem ser o nome do nosso filho
eu já tinha planejado três crianças e a casa mas a vida agora permite um gato num apartamento de cinquenta metros quadrados em qualquer bairro onde vá o metrô
o bom é que vinte minutos e sento no trabalho pra tomar café da manhã já que não consigo comer antes das nove e meia
foi na rua de trás que comprei o livro de poemas que me indicou quando não estávamos juntos e eu mandei uma foto esperando uma reação sua
perdi a referência da montagem do quebra-cabeça que começamos mas minha memória visual é boa e lembro da maior parte da figura
nesse envelope você encontra todas as letras que roubei da sua palavra preferida quase todas intactas com uma mancha no L e um rasgo no B consequências do uso
espero que me perdoe por te-las embaralhado e remontado com outros significados quando o mais fácil eram o mais simples e o mais certo era o mais justo
aqui você acha um presente que é de aniversário mas é modesto porque confesso que esqueci o nome daquele autor que você queria tanto
senti sua falta na noite passada e acordei deitada com o silêncio de uma briga de abril há par de anos
tinha certeza de estar juntos e nem choro ou grito te fariam ir

põe o dedo no segundo nó que é pra gente reforçar o primeiro só por garantia

sexta-feira, novembro 11

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provavelmente morrerei antes dos quarenta e cinco
no acidente forjado por mim
antes dos quarenta
da ponta da lâmina que corta da faca
com trinta e cinco morro
de depressão
pós-parto
no passo em falso
e na queda planejada morrerei
aos trinta
presa encarcerada com fio de corda ou retalho qualquer
vou-me aos vinte e
cinco n’uma viga amiga
ou barra que valha
até meus vinte não pensava
em morte lâmina corda tristeza

a vida começa no medo
a morte a ele dá fim

(fevereiro 2016)

sábado, setembro 17

cotidiano 2x2

pão com geleia de frutas
vermelhas você me prepara
insípido
suco de caju duas partes de água para uma mistura
insulso
tapioca matinal quer presunto ricota?
insosso
dez minutos diários de sol na beira do mar com vento da praia e pássaros rasante você de bicicleta me convence

...

tão bom pra mim

forço a comida a cerveja o convívio o exercício a musculatura pélvica pra extrair a gota restante de prazer que me resta ... !
só ainda não perdi o gosto por teu colo quando eu choro nem a ânsia de viver

terça-feira, setembro 13

a velocidade mediana do homem médio atravessando a av. rio branco no dia de sol é de quatro com dois quilômetros por hora

inversamente proporcional é o ritmo do piscar dos seus cílios quando cruza à 45º a esquina da banca

um adendo à equação se faz pelo gole seco ao passar do esôfago ao duodeno, resultando em exatamente nada que servisse à digestão

a expiração alveolar total faz uma mosca mudar ligeiramente o percurso, trombando no sorvete vanilla recém expelido o que causa um grito do passante ao devorador desavisado

no clima seco setembril o ar pouco se movimentou nos arredores do número um sete sete, eliminando momentaneamente a teoria do caos e sendo sugado pelo exaustor do metrô da carioca antes que mandassem um olá qualquer

sábado, junho 11

o camelo-leopardo e o coiote

recebi da áfrica do sul uma
girafa de montar
minha irmã sabe que gosto de
quebra-cabeças e de animais
com a letra


no meu sonho você sacava um cigarro de palha

encaixo 4A com 5B enquanto
recitas Matilde
oras
amamos Matilde no entanto
estamos fartas de ler
tantas querendo
ser
Matildes

no meu sonho você acendia um cigarro de palha

as pernas não encaixam
no dorso cortado
a quente na china
é uma girafa africana
e não recita poemas
lusitanos

no meu sonho você tragava um cigarro de palha

coleciona na estante
instantes
do quarto bibelôs do leste
europeu e algumas
moedas irlandesas
- não conhecia poetas da antiga
iugoslávia enquanto as estrelas
se punham

no meu sonho um cigarro de palha queimava no chão

no piso também jaz um animal
de madeira montado por encaixe
(é jeito, não força)
o livro que comprei por tua causa
e as roupas tiradas às pressas

no meu sonho eu te trago como palha tabaco e ar