O mais desestimulante é a falta de surpresa. Os mais otimistas – ou ainda os que preferem não se revoltar profundamente com a situação – dizem que foi melhor ter acontecido agora do que depois. Obviamente, melhor fosse se as coisas acontecessem de modo correto, justo e transparente nesse país.
Enquanto o mundo comemorava a nomeação do Rio para sede das Olimpíadas de 2016, nós nos dirigíamos à sala para, sem saber exatamente porque, receber detalhes finais sobre a prova que seria amanhã. É indiscutível a desilusão e a decepção que se espalhou pelos terceiros anos e cursinhos Brasil a fora. O pior é que não nos surpreendemos. É saber como todo o esquema foi mal planejado, onde qualquer um poderia fraudar. A Polícia Federal, que supostamente ajudaria na elaboração de um sistema de defesa das gráficas responsáveis, não foi informada de sua função. Os funcionários tinham acesso fácil às provas e a pouca vigilância facilitou muito o seu vazamento; agora tantas outras fraudes vêm à tona e a nossa indignação só aumenta.
O que poderíamos esperar de um exame decidido às pressas, imposto às universidades e aos alunos, definido quase na metade de um ano que, como todos sabem, é corrido, estressante e cansativo para os envolvidos com vestibular? O governo teve claro cunho eleitoreiro nessa decisão, sem ao menos analisar a condição de seus estudantes. A única coisa que podemos pensar é que nenhum dos que apoiaram a mudança repentina nesse processo de admissão tem um filho, sobrinho ou neto vestibulando. E o que fazer com as centenas ou milhares de pessoas que se organizaram para o fim de semana? Refiro-me àquelas que precisaram se deslocar, alugar carros ou vans e reservar quartos para chegar ao seu local de prova. A esses, não haverá nenhum reembolso.
Dizem as más - porém aparentemente justas - línguas que tudo foi planejado. Que o ser humano tem mania de conspiração não podemos negar – nem que as teorias fazem sentido. Uma das razões seria falta de tempo para realocar o número enorme de inscritos cujos locais de prova eram ilógicos, situações de bairros distantes e até mesmo outras cidades. O número de processos que seriam abertos contra o INEP faria valer à pena o adiamento da prova? É plausível. Outras mais ousadas pregam que o ENEM nem se quer estava pronto, que a própria instituição armou a fraude – o que é pouco provável visto que muitas provas já haviam sido impressas.
Não há nada que nos garanta a eficiência dessa nova prova. Provavelmente, haverá vazamento de questões e nos sentiremos ainda piores por não podermos interferir. É, caríssimos, esse é o nosso ano de vestibular. Novo Enem anunciado em maio, gripe suína, quebra de sigilo, adiamento... Tudo aponta para a velha ideia do Tudo Muda no Nosso Ano. Confesso que nem sei bem o que fazer nesse fim de semana, apesar da maratona de provas que está chegando. Enquanto o Rio comemora sua nomeação, nós olhamos um certo manual que veio pelo correio e sabemos, sem um pingo de dúvida, como resolver o problema de abastecimento cubano.
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Que me perdoe a professora de português, mas nada de estrutura hoje.